de Namkhaï Norbu Rinpoche
Traduzido para o português por Karma Tenpa Dhargye
Os
praticantes do dzogchen deveriam começar por purificar o fluxo de
nossos pensamentos, nossa corrente de consciência, abrandando-os com a
ajuda das quatro meditações que promovem uma mudança na nossa maneira de
encarar a vida, a saber:
- A dificuldade de renascer no mundo humano;
- A brevidade da vida;
- A universalidade do sofrimento no samsara;
- Karma: causas e efeitos.
Concretamente,
isso quer dizer que, qualquer que seja nossa prática, devemos
permanecer conscientes. Se já conhecemos algumas práticas, as
prosternações, por exemplo, mas que, por distração ou por preguiça, nós
não as fazemos nunca, é necessário buscar a razão. Nós não praticamos
porque somos inconscientes, porque ser consciente, aqui, é não perder
seu tempo. Ser consciente, também quer dizer que deveríamos nos dar
conta do valor dos ensinamentos, e da ocasião única que nos oferece esta
vida humana. É desta tomada de consciência que vem o reconhecimento dos
efeitos que se seguem à perda desta ocasião única que representa a
preciosa existência humana. Eis tudo o que se encontra implícito nisso
que entendemos por "ser consciente".
Quando se
trata de explicar essas quatro meditações, começamos geralmente por
mostrar a importância de ter renascido entre os humanos. Para estudar os
ensinamentos preliminares, o ngöndro, é preciso abordar, em
todos os detalhes, cada uma das dezoito características d’uma existência
humana dita "preciosa". Mas igualmente, deveríamos estar conscientes
que, mesmo se tomamos renascimento humano sobre o planeta Terra, esta
situação não durará sempre; ela não é eterna. Nos sutras há uma
história de mercador que se encontra a mercê das circunstâncias sobre
uma ilha toda de pedras preciosas no meio do vasto oceano e que regressa
de mãos vazias porque não havia reconhecido nada. Quando por fim
morrermos e nos encontremos no bardo, o estado que segue a morte e
precede o renascimento, se vivemos sem a menor consciência, se não
apreciamos nunca o valor da vida humana nem reconhecemos sua
impermanência, nossa condição, então, não será melhor do que a de um
cão. Em geral, encontramos nos textos budhistas uma analise muito
detalhada da impermanência do mundo e do indivíduo. Entretanto, o
essencial aqui não consiste em memorizar o maior número possível de
ensinamentos, mas em permanecer consciente, em cada instante, da
impermanência universal.
Isso não impede que,
mesmo consciente da brevidade da vida, se exercemos alguma ação positiva
à altura de nossa preciosa existência, acumulemos causas d’um feliz
renascimento próximo. Se continuarmos tolamente a acumular causas
negativas, estaremos ignorando a realidade do karma, que é de uma
importância extrema, então é seguro e certo que experienciaremos seus
efeitos, negativos também. Esse processo não tem outro resultado do que a
transmigração e o sofrimento em um ou outros dos renascimentos
possíveis. Quando tomamos consciência das causas e dos efeitos de nossos
atos, assim como da universalidade do sofrimento no samsara, não há dúvida que seremos então motivados para praticar os ensinamentos do dharma, a via segura e certa da liberação e do despertar.
Exercitar-se
nessas quatro meditações, isso quer dizer, sobretudo tentar estar
presente em todo momento e consciente em todas as circunstâncias. Isso
não significa somente ler livros budistas e ainda menos se comprazer em
discussões intelectuais as mais sofisticadas. Alguns entre nós, por
exemplo, estudam um texto tibetano do ngöndro, depois o praticam durante um longo período de tempo. Não há nada de mal nisso: o ngöndro são
práticas muito importantes. Abordamos essas quatro meditações estudando
as condições necessárias para uma preciosa existência humana – uma
existência humana, pois, que reunirá todas as condições necessárias à
prática do dharma.
Quais são essas
condições? É preciso de início escapar às oito condições que não
oferecem a menor ocasião, o menor lazer para praticar o dharma. Um renascimento nos infernos, no reino dos pretas – ou espíritos famintos -, no reino dos animais, ou entre os bárbaros que ignoram o dharma,
no reino dos deuses cuja vida é desmedidamente longa, ou então no reino
dos seres que tem visões fundamentalmente perversas, ou numa era que
nenhum budha dá a honra de seu aparecimento, ou enfim, um renascimento
entre os homens, claro, mas em um corpo cujos sentidos e faculdades não
funcionam. Essas oito condições são ausências de liberdade, e seus
contrários, terão ocasiões favoráveis. Dez outras ocasiões favoráveis
são em seguida necessárias, cinco dependendo do indivíduo e cinco não dependendo dele. Essas últimas concernem a aparição d’um budha nesse mundo: um budha veio, ele ensinou o dharma, seu dharma
existe ainda, empreendemos a prática, e há outros seres vivos em todo
mundo suscetíveis de se tornar objetos da compaixão do praticante. As
cinco condições que dependem do indivíduo resultam de sua situação: é um
ser humano, nasceu num país onde o dharma é acessível, ele
possui todos os sentidos, ele não vive de expedientes imorais ou
criminosos, e ele tem fé no seu mestre e nos ensinamentos de seu mestre.
Nenhuma dessas condições deve faltar.
Para terminar, quando os adeptos do ngöndro
fazem um retiro, seu mestre lhes ensina a meditar sobre cada um desses
pontos, um por um, durante alguns dezoito dias. É isso que muitos
praticantes têm feito, e é bem isso que é preciso fazer: meditar sobre
cada uma dessas condições e sobre a argumentação que é estabelecida, uma
após outra, para melhor conhecer as dezoito condições necessárias à uma
existência humana verdadeiramente preciosa. E nisso que eles se
exercitam.
No dzogchen, entretanto, a consciência
não funciona dessa maneira. Não há argumento à fornecer nem à confirmar.
Essas demonstrações, esses esquemas de análise foram criadas por
mestres posteriores. Quando o budha Shakyamuni explicava o valor d’uma
vida humana e sua indubitável impermanência, ele recorria a diferentes
imagens: a nuvem n’um céu de outono, a torrente na montanha, a
representação teatral, a chama tremulante d’uma lamparina de manteiga, e
assim em diante. Tendo extraído essas comparações dos sutras,
que são as palavras do budha, os eruditos estabeleceram uma lista e suas
análises criando um método de raciocínio sobre a impermanência. Não foi
o próprio budha que apresentou essas comparações sob forma de
demonstrações. Ele tentava somente conduzir os diferentes seres à uma
certa compreensão da existência humana, e por isso recorria a métodos
diferentes. O principio aqui, não é, pois meditar sobre esses diversos
argumentos, os quais tendem a provar a impermanência de todas as coisas,
em nossa vida, mas de manter constantemente presente à mente esta
consciência de impermanência de todas as coisas. Pouco importa como em
nossa vida atual, o momento em que satisfazemos essas dezoito condições –
não é isso que conta! Deveríamos, sobretudo estar conscientes, de
momento a momento, da ocasião única que oferece um renascimento humano,
afim de não deixar passar em vão. Nossa existência humana vale mais que a
de um gato ou de um cachorro, na medida em que o ser humano sabe pensar
e falar. O ser humano tem de longe uma maior capacidade de prejudicar
que os gatos e os cães: fabricando bombas atômicas, por exemplo. Mas os
seres humanos têm também a capacidade de realizar o despertar no curso
de sua vida, de tal modo seus poderes são muito superiores àqueles dos
animais. Eis o verdadeiro sentido da preciosa existência humana – seu
potencial. A consciência de nossa verdadeira condição, bem como nossos
limites e nossas capacidades, eis o sentido da atenção e da consciência [dran-rig].
Se
for preciso estudar nos textos a totalidade dessas análises, é aí que o
trabalho se complica, não somente para os tibetanos mais ainda, senão
mais, para os ocidentais. E é assim que freqüentemente perdemos o
verdadeiro sentido das coisas. É isso que é preciso evitar. Revela-se,
pois necessário simplificar as coisas se queremos colocar o dedo sobre o
que é verdadeiramente importante. Ser consciente não se resume somente
em praticar as quatro meditações que nós mencionamos; em princípio, isso
significa não estar distraído tentando fazer o melhor em qualquer
circunstância. E é assim que treinamos em ficar conscientes e presentes.
É esse o sentido do "treinamento da mente"; e as quatro meditações que
acabamos de ver, destinadas à nos fazer mudar de atitude, constituem as
práticas preliminares comuns.
Em seguida vem as
práticas preliminares extraordinárias, que têm por função nos fazer
acumular karma meritório e de nos purificar de nosso véus. Para isso, é
preciso tomar refúgio nas três jóias, cultivar a mente do despertar (bodhichitta), meditar sobre Vajrasattva recitando seu mantra, oferecer mandala e nos unir a todos os mestres no "guru yoga". De todas essas práticas, a mais importante é o "guru yoga", ou "yoga do mestre".
Os ensinamentos como o tantra
e a grande perfeição se ligam à uma transmissão. A transmissão permite
ao indivíduo compreender seu estado primordial ao nível da experiência
imediata, por intermédio de palavras ou de símbolos, ou diretamente de
mente para mente. O mestre tem por papel conduzir o praticante à
reconhecer que a natureza de sua mente é comparável à um espelho, e que
os pensamentos que aparecem são comparáveis aos reflexos que surgem no
espelho. Nossa pura presença, nossa consciência intrínseca [rig-pa],
é análoga à este poder que tem o espelho de refletir tudo o que passa
diante dele, tanto o belo como o feio. Esses reflexos aparecem como
propriedades, ou qualidades, do espelho. Mas, do fato de que não
percebemos a natureza do espelho, seu poder, tomamos os reflexos que
aparecem como entidades sólidas, exteriores e reais. Assim condicionados
por esses reflexos, agimos de acordo com essa conclusão errônea para
cair na transmigração. É o mestre que mostra ao praticante a diferença
que existe entre a mente, quer dizer os pensamentos, e a natureza da
mente. Quando começamos a apreender esta distinção, podemos seriamente
falar de transmissão de conhecimento, um conhecimento que não é somente
compreensão intelectual, mas experiência real e concreta.
No dzogchen, a palavra yoga
não significa somente "união", mas designa, sobretudo aquele ou aquela
que será rica de conhecimento de seu estado natural, dito de outro modo
aquele ou aquela que se encontrará na presença do conhecimento de sua
condição primordial chamada rig-pa, ou pura presença. Esta
consciência de nossa pura presença inata, ou consciência intrínseca, é o
nosso mestre verdadeiro. Esta condição tem por contrário a ignorância.
Não deveríamos jamais nos permitir abandonar este estado de consciência.
Os quatro momentos ou ocasiões, aos quais se faz referencia nos texto
tibetano são os momentos quando comemos, quando andamos quando estamos
sentados e quando dormimos. Como já dissemos, na grande perfeição, o
essencial, é de não ficar distraído e de perseverar na presença desta
consciência vigilante.
Tal é a raiz da prática.
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